A discriminação escancarada

* por João Renda Leal Fernandes

A discriminação no emprego é algo tão sutil, que na maioria das vezes torna-se imperceptível, não apenas por quem discrimina, mas também por quem é vítima.

Em casos judiciais, as provas sobre práticas discriminatórias são de difícil obtenção, pois frequentemente relacionadas a condutas sem marcas de exterioridade e sem qualquer caráter ostensivo. Ou seja, são práticas invisíveis e torna-se complicado criar métodos ou conduzir pesquisas nessa área.

Dois estudos norte-americanos, contudo, escancararam que a discriminação ocorre desde o momento de acesso ao emprego (ou seja, ainda na fase pré-contratual).

Nos EUA, existem alguns nomes mais comuns entre pessoas de cor branca e outros nomes mais frequentes entre indivíduos negros. Pesquisadores da Universidade de Chicago e do MIT selecionaram 1.500 anúncios de empregos (em Boston e Chicago) e encaminharam currículos fictícios de Emily Walsh e Greg Baker (nomes comuns entre brancos) e de Lakisha Washington e Jamal Jones (nomes típicos de negros). Os resultados revelaram discriminação significativa contra nomes afro-americanos, pois os nomes brancos receberam 50% mais chamadas de retorno para entrevistas. Ao alterarem o grau de qualificação profissional nos currículos enviados, os pesquisadores observaram que, para os nomes brancos, a qualificação superior provocava acréscimo de 30% nas chamadas, embora para os afro-americanos o mesmo incremento de qualificação provocasse aumento muito menor.

Em outro estudo (Univ. de Princeton), foram utilizadas equipes de 3 trabalhadores (um branco, um negro, e um latino), que se candidatavam aos mesmos postos de trabalho na cidade de Nova Iorque e se apresentavam para entrevistas de emprego com perfis e qualificações de nível semelhante. Os resultados revelaram que a proporção de respostas positivas dependia fortemente de aspectos raciais, com uma clara preferência aos entrevistados de cor branca, seguidos pelos latinos, com os negros sendo claramente preteridos e bem atrás. Por vezes, o concorrente branco se candidatava a determinado emprego e lhe era oferecida posição superior. O colega negro, no entanto, enfrentava frequentemente o caminho inverso (candidatava-se, por exemplo, a uma posição de vendas, em contato direto com clientes, e lhe era oferecido emprego no estoque da loja). Numa entrevista para trabalho em rede de joalherias, apesar de ter declarado experiência em vendas, o candidato negro ouviu que não seria propriamente o “tipo” de pessoas que aquela empresa estava procurando.

Será que, no Brasil (último país independente das Américas a abolir a escravidão), pesquisas com metodologia similar apresentariam resultados muito diferentes?

Para quem tiver curiosidade, a íntegra dos estudos pode ser obtida nos seguintes endereços:

https://www.nber.org/papers/w9873

https://scholar.harvard.edu/files/pager/files/race_at_work.pdf

Autor: João Renda Leal Fernandes

Mestrando em Direito do Trabalho e Direito Previdenciário no PPGD UERJ, Visiting Researcher na Harvard Law School (2019-2020), ex-bolsista da Japan Student Services Organization na Tokyo University of Foreign Studies, Juiz do Trabalho no TRT/RJ.

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