Os robôs vão roubar o seu emprego?

* Por Ricardo José Leite de Sousa, advogado, doutorando em Direito do Trabalho e Previdenciário do Programa de Pós-Graduação em Direito da UERJ

Imagem: Shutterstock

Em agosto de 2014, o YouTuber americano CGP Grey, conhecido por postagens de cunho educacional, lançou seu vídeo mais impactante e de maior sucesso até hoje: Humans Need Not Apply [1]. Trata-se de um curta-metragem de apenas 15 minutos, sobre a crescente e rápida substituição do trabalho humano por robôs, entendendo-se por robôs a automação de atividades hoje feitas por seres humanos, seja mediante a utilização de estruturas corpóreas (robôs propriamente ditos), seja pela implementação da Inteligência Artificial (IA).

A perspectiva de Grey é sombria: chegaremos ao ponto em que o trabalho humano não será mais necessário em quase nenhuma atividade, não sendo mais preciso que pessoas se candidatem a vagas de emprego (daí o título do vídeo).

Estaria Grey certo? Chegaremos ao ponto em que a automação, incrementada pela IA, vai promover uma extinção em massa dos postos de trabalho?

Muita gente garante que não, e a discussão não é exatamente nova.

Estamos no século XVIII, e um aprendiz de tear mecânico chamado Ned Ludd é levado por seu empregador a julgamento. A queixa feita contra Ned é a de que ele não se esforça o suficiente e resiste a ficar confinado durante a jornada de trabalho.

Como resultado do julgamento, Ned é sentenciado a ser açoitado. A reação do trabalhador é pegar um martelo e destruir o tear mecânico.

Seu exemplo se espalha pela Inglaterra, iniciando um movimento conhecido como luddismo, que é majoritariamente entendido como uma revolta de trabalhadores contra uma nova tecnologia – o tear mecânico – que vinha a ameaçar a existência de seus empregos [2].

A história veio a comprovar que o movimento operário não teve sucesso em deter o avanço tecnológico que embalou a primeira fase da Revolução Industrial. E mais: a preocupação de que as novas tecnologias implicariam a extinção maciça de postos de trabalho e a piora generalizada nas condições laborais não veio a se confirmar.

Não obstante os sucessivos saltos tecnológicos havidos desde então, as condições gerais de vida da massa trabalhadora foram, pouco a pouco, experimentando melhorias.

Por um lado, a humanidade presenciou, ao menos, cinco marcos de avanços tecnológicos que mudaram a história do mundo entre os anos 1770 e os anos 2000: (a) Primeira Revolução Tecnológica (Revolução Industrial – 1771); (b) Segunda Revolução Tecnológica (Era do Vapor e das Ferrovias – 1829); (c) Terceira Revolução Tecnológica (Era do Aço, da Eletricidade e da Engenharia “Pesada” – 1875); (d) Quarta Revolução Tecnológica (Era do Petróleo, do Automóvel e da Produção em Massa – 1908); e (e) Quinta Revolução Tecnológica (Era da Informação e das Telecomunicações – 1971) [3].

Por outro, a expectativa de vida da população em geral, e dos trabalhadores em especial, aumentou significativamente; as jornadas de trabalho foram reduzidas; as condições de segurança e saúde nos ambientes de trabalho foram melhoradas de maneira a reduzir a exposição de trabalhadores a agentes insalubres, perigosos ou penosos; o trabalho feminino e infantil passou a ser objeto de proteção especial dentre tantos outros avanços.

Tudo isso aconteceu sem que houvesse o temido extermínio dos postos de trabalho. Pelo contrário, observou-se uma migração da massa trabalhadora dos campos para os centros urbanos, com a criação de novas atividades até então inexistentes.

O aumento constante da produtividade sem uma correspondente redução dos postos de trabalho fez com que o economista Alex Tabarorrok afirmasse que “se a falácia luddista fosse verdadeira, todos estariam sem trabalho, porque a produtividade vem aumentando nos últimos dois séculos” [4].

Com esse retrospecto histórico, será que podemos ficar tranquilos? Afinal de contas, os robôs não vão roubar os nossos empregos e Humans Need Not Apply não passa de um bom exercício de ficção científica?

Bem, as coisas não são tão simples.

Quando o tema é automação impulsionada pela IA, há um elemento novo que entra na equação, que não se fez presente nos saltos tecnológicos anteriores: o crescimento exponencial da tecnologia.

Trata-se da conhecida Lei de Moore. Em 1965, Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, publicou um artigo afirmando que, a cada dois anos, a quantidade de transistores que poderiam ser colocados em um circuito integrado dobraria. Sua previsão foi recebida com absoluta desconfiança, mas se confirmou ao longo dos últimos 50 anos.

Para explicar a Lei de Moore, e esclarecer o que realmente significa um crescimento tecnológico exponencial, a maior parte dos autores que estudam os avanços da IA recorre a uma lenda.

O criador do jogo de xadrez apresentou sua invenção a um rei. Maravilhado com a genialidade do jogo, o rei lhe ofereceu como prêmio o direito de escolher sua própria recompensa. Tendo em vista a generosidade do rei, o sábio criador do jogo fez um pedido no mínimo peculiar: no primeiro dia, buscaria 1 grão de trigo (ou arroz, dependendo da variação da lenda contada), referente ao primeiro quadrado do tabuleiro; no segundo dia, viria buscar 2 grãos, pelo segundo quadrado; no terceiro, 4 grãos; no quarto dia, 8 grãos; depois viria buscar 16, 32, 64 grãos e assim sucessivamente, tantos dias quantas fossem as casas do tabuleiro de xadrez (sessenta e quatro ao todo).

O rei se sentiu ofendido com um pedido tão ínfimo e quase mandou castigar o criador do jogo, mas ao final acabou cedendo. Contudo, dobrando-se a quantidade de grãos a cada dia, ao final dos sessenta e quatro dias o criador do jogo teria direito a 264-1 grãos, o que equivale a 464 milhões de toneladas de trigo. Se os grãos fossem empilhados, superariam em altura o monte Everest.

Esse é o efeito do crescimento exponencial.

E o que isso tem a ver com a Inteligência Artificial? Tudo, uma vez que ela está avançando de forma exponencial, seguindo de certa forma a Lei de Moore.

Um fato que permite concretizar essa afirmação é o salto experimentado pelos carros autônomos em um período de apenas seis anos.

Em 2004, foi lançado o primeiro DARPA Grand Challenge, que consistia no desafio de construir um carro autônomo que conseguisse completar uma rota de 800 km no Deserto de Mohave (EUA).

Organizado pela Defense Advanced Research Projects Agency dos EUA (DARPA), o desafio ofereceu o prêmio de um milhão de dólares para a equipe que se sagrasse vencedora, completando o percurso em primeiro lugar. Quinze automóveis participaram da disputa, mas não houve vencedores. O veículo de melhor desempenho percorreu parcos 12km, sofrendo alguns acidentes e levando horas para atingir essa distância [5].

Em 2010, sete carros Toyota Prius adaptados pela Google percorreram de forma completamente autônoma a distância de 1.600 km em estradas norte-americanas sem qualquer tipo de incidente. Com pequenas adaptações que permitissem leve interação humana, a distância percorrida pelos carros chegou a incríveis 230.000 km. Em relação ao primeiro desafio DARPA, isso significa uma melhora de mais de 19 mil vezes. Nesse passo, em poucos anos a categoria de motoristas profissionais será extinta.

A mesma IA que vem impulsionando carros autônomos está alcançando, dia a dia, atividades cuja automação seria impensável há uma década.

Hoje já vemos advogados [6] e médicos [7] sendo substituídos por sistemas baseados em IA, que apresentam desempenho muito superior ao dos seus concorrentes humanos, tanto em eficácia, quanto em velocidade.

Percebe-se que, ao contrário da tendência histórica, o avanço tecnológico não veio apenas automatizar tarefas braçais e repetitivas. Chegamos ao ponto em que tarefas basicamente intelectuais não são mais levadas a cabo exclusivamente por seres humanos.

Considerando-se que as máquinas não ficam doentes, não tiram férias, não se distraem acessando redes sociais, não requerem pagamento regular de salários e têm uma capacidade infinitamente maior de processar informações do que qualquer pessoa, há uma tendência de automação do trabalho humano por intermédio da IA, com múltiplos estudos já apontando nesta direção.

Michael A. Osborne e Carl Benedikt Frey, pesquisadores da Universidade de Oxford, concluíram existir o risco de desaparecimento de 47% dos postos de trabalho nos Estados Unidos nas próximas duas décadas [8]. A firma de consultoria Roland Berger estima que, na França, esse percentual, para um período temporal similar, seria de 42% [9].

Ao que tudo indica, o quadro retratado em Humans Need Not Apply está mais próximo de acontecer do que CGP Grey imaginou e, sim, os robôs vão roubar seu emprego. Resta saber o que será feito para manter a subsistência de tantos desempregados.

A resposta a essa pergunta certamente vale muito mais do que o prêmio oferecido no primeiro DARPA Grand Challenge.

Notas:

[1] O vídeo pode ser assistido no link https://www.youtube.com/watch?v=7Pq-S557XQU

[2] Apesar de a visão hegemônica sobre o luddismo ser a de que a destruição de máquinas era uma forma de protesto em face do avanço tecnológico, há vozes gabaritadas que discordam disso. O historiador Eric J. Hobsbawm, no livro “Os Trabalhadores”, defende a tese de que atentados promovidos por empregados contra maquinários de seus patrões eram uma tática comum visando à paralização da produção, com o objetivo de conseguirem margem de manobra para a negociação de melhores condições de trabalho.

[3] PEREZ, Carlota. Technological revolutions and techno-economic paradigms. In: Cambridge Journal of Economics, 34, 2010, p. 190-192.

[4] TABARORROK, Alex. Productivity and unemployment: Marginal Revolution. Disponível em < https://marginalrevolution.com/marginalrevolution/2003/12/productivity_an.html>, consultado em 22 ago 2019.

[5] V. mais sobre o assunto em https://www.darpa.mil/news-events/2014-03-13

[6] Sobre a competição entre advogados e inteligência artificial, recomenda-se a leitura dos artigos “Inteligência artificial usada como advogado derrota 100 profissionais reais” (https://www.tecmundo.com.br/software/123804-inteligencia-artificial-usada-advogado-derrota-100-profissionais-reais.htm) e  “Inteligência artificial bate 20 advogados em testes de revisão de contratos” (https://www.conjur.com.br/2018-nov-21/inteligencia-artificial-bate-20-advogados-revisao-contratos)

[7] A Ping An Good Doctor, empresa chinesa de saúde, está construindo mil “clínicas em um minuto” em solo chinês. O sistema não tem nenhum funcionário e opera apenas por meio de inteligência artificial. Mais informações em https://www.startse.com/noticia/startups/60680/clinica-chinesa-inteligencia-artificial-diagnostico-um-minuto

[8] FREY, C.B.; OSBORNE, M.A. The Future of Employment: how susceptible are jobs to computerization?  Disponível em: https://www.oxfordmartin.ox.ac.uk/downloads/academic/The_Future_of_Employment.pdf. Último acesso em: 29 set.2018

[9] Fonte: VILLANI, Cédric. For a Meaningful Artificial Intelligence. Towards a French and European Strategy. Mar. 2018. Disponível em: https://www.aiforhumanity.fr/pdfs/MissionVillani_Report_ENG-VF.pdf . Último acesso em: 17 mai.2018.

Autor: UERJ Labuta

O UERJ Labuta é um Grupo de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Direito da UERJ - Direito do Trabalho e Direito Previdenciário. O conteúdo dos artigos publicados possui caráter acadêmico-informativo e reflete exclusivamente a opinião de seu(s) respectivo(s) autor(es).

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