Clássicos & Derbis

Fla-Flu: história do clássico que nasceu de um racha

Clássicos do Rio · 2026-08-28 · Clássicos & Derbis
Imagem temática do clássico — Fla-Flu: história do clássico que nasceu de um racha

Poucos clássicos do planeta podem dizer que nasceram de um racha dentro de casa. Em novembro de 1911, um grupo de jogadores deixou o Fluminense Football Club após uma disputa interna e fundou o departamento de futebol do Clube de Regatas do Flamengo, até então dedicado ao remo. O primeiro confronto entre os dois lados aconteceu em 7 de julho de 1912, no campo das Laranjeiras: vitória do Fluminense por 3 a 2, com gols que transformaram um desentendimento de bastidores na maior rivalidade do Rio de Janeiro.

O jornalista Mário Filho, dono do Jornal dos Sports, percebeu cedo o que aquilo significava. Foi ele quem fundiu os nomes em Fla-Flu e cunhou a expressão Clássico das Multidões, ao ver o Maracanã encher como nenhum outro jogo de clubes enchia. Seu irmão, o escritor Nelson Rodrigues, tricolor fanático, imortalizou a frase que ainda define o duelo: o clássico não teria começo nem fim.

Um racha que virou patrimônio do Rio

O Fluminense já era um clube estabelecido, fundado em 1902 pela elite carioca. O Flamengo, nascido no remo em 1895, ganhou no futebol um braço popular que cresceu rápido. Em poucas décadas, o rubro-negro virou o clube das multidões e o tricolor manteve a aura de clube de tradição e elegância, apelido que colou nas arquibancadas e na crônica esportiva.

Essa divisão social original — de um lado o clube do povo, do outro o clube das Laranjeiras — alimentou o clima por gerações. Autores como Nelson Rodrigues transformaram o duelo em literatura, e as redações passaram a tratar cada edição como capítulo de uma novela sem desfecho, com manchetes de página inteira e crônicas que atravessaram o século.

Tecido de flâmula antiga de clube de remo carioca em vermelho e preto sobre linho claro

O recorde que o mundo nunca superou

Em 15 de dezembro de 1963, pelo Campeonato Carioca, o Maracanã registrou 194.603 pagantes para o empate em 0 a 0 entre os dois rivais. É o maior público da história do futebol de clubes, marca que permanece intocada mais de seis décadas depois. O empate sem gols, ironia das ironias, não diminuiu em nada a lenda: reforçou a ideia de que o duelo se bastava como espetáculo.

O recorde ajuda a medir o tamanho do confronto no século XX. Enquanto estádios da Europa raramente passavam de 80 mil lugares, o Rio colocava quase 200 mil pessoas para ver um clássico estadual, em uma era sem ingressos pela internet e com arquibancadas inteiras em pé.

Jogos que entraram para a história

Marcos históricos do duelo carioca
AnoJogoPlacarFato
1912Primeiro confronto, LaranjeirasFlu 3 x 2 FlaNascimento oficial do clássico após o racha de 1911
1963Campeonato Carioca, MaracanãFla 0 x 0 Flu194.603 pagantes, recorde mundial de público entre clubes
1995Final do CariocaFla 3 x 2 FluGol de barriga de Renato Gaúcho no fim, título rubro-negro

Renato, Romário e os heróis de cada lado

O gol de barriga de Renato Gaúcho na final de 1995 é talvez o lance mais repetido da história recente do confronto: cruzamento na pequena área, o atacante se atirando e empurrando a bola com a barriga para dentro do gol tricolor. Do outro lado, gerações de tricolores lembram dos gols de Romário, ídolo formado nas Laranjeiras que depois vestiu as duas camisas em capítulos distintos da carreira.

Ídolos divididos são parte da mitologia: além de Romário, nomes como Renato Gaúcho e tantos outros defenderam os dois lados em épocas diferentes, o que só aumenta a provocação nas arquibancadas e a sensação de familiaridade esportiva entre os elencos.

Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro ao entardecer, com barcos de remo vazios na margem

Por que o clássico segue único

  • Origem única: nasceu de um racha interno, não de uma divisão de bairros.
  • Recorde mundial de público entre clubes, com 194.603 pagantes em 1963.
  • Nome e aura forjados pela imprensa: Mário Filho e Nelson Rodrigues.
  • Ídolos que cruzaram a fronteira e alimentaram a provocação dos dois lados.
  • Mais de um século de decisões no Carioca, no Brasileiro e em copas.

O clássico no cenário nacional

Com o futebol brasileiro se nacionalizando a partir dos anos 1960 e 1970, o duelo deixou de ser apenas uma questão carioca. Os dois clubes se cruzaram em fases decisivas de Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, e o Flamengo construiu sua era mais vitoriosa no fim dos anos 2010 com dois títulos de Libertadores, enquanto o Fluminense respondeu com a sua primeira taça continental, em 2023.

Essas campanhas recarregaram a provocação: cada taça internacional de um lado virou cobrança imediata do outro. O tricolor festeja ter encerrado a espera continental no Maracanã; o rubro-negro lembra que chegou lá duas vezes antes. É a lógica centenária do confronto aplicada às copas modernas.

Nos bastidores, a administração compartilhada do Maracanã entre os dois clubes criou uma novela paralela: quem manda na casa onde o clássico bateu seu recorde mundial? A resposta, negociada ano após ano, mostra que a rivalidade atravessa o campo e chega às salas de reunião.

Times mudam, estádios envelhecem, a lógica do futebol se profissionaliza, e o duelo continua parando a cidade. Quem entende essa história entende por que o Rio ainda mede seus grandes jogos pela régua criada naquele 7 de julho de 1912.