Gre-Nal: história e números do clássico gaúcho

Em outubro de 2008, a revista Trivela consultou jornalistas do Brasil e do exterior e elegeu o maior clássico do futebol nacional. A resposta não veio do Rio nem de São Paulo: veio de Porto Alegre. O Gre-Nal, duelo entre Grêmio e Internacional, venceu a enquete — e em 2016 a inglesa FourFourTwo foi além, classificando-o como o maior clássico do Brasil e o oitavo maior do mundo.
Os números explicam a escolha. São mais de 450 confrontos desde 1909, com o Internacional à frente no saldo histórico: 166 vitórias coloradas, 143 gremistas e 144 empates, segundo o compilado da estatística oficial do clássico. Equilíbrio assim, ao longo de mais de um século, não tem paralelo no futebol brasileiro.
1909: um 10 a 0 para começar
O primeiro capítulo da história foi disputado em 18 de julho de 1909, poucos meses depois da fundação do Internacional. O Grêmio, que já existia desde 1903, venceu por 10 a 0 — placar que permanece como a maior goleada do clássico e que os colorados passaram um século tentando esquecer e os gremistas um século celebrando.
Aquele placar inaugurou a lógica do duelo: nenhuma provocação expira. A vitória de 1909 ainda é citada em faixas e cantos de arquibancada, como se o tempo não passasse em Porto Alegre. E, de certa forma, não passa mesmo: a cidade mede seus humores pelo resultado do próximo clássico.

Um estado dividido ao meio
A força do duelo está na geografia. O Rio Grande do Sul praticamente se divide ao meio entre as duas torcidas, do litoral à fronteira com o Uruguai, e cada cidade pequena tem suas famílias rachadas em vermelho e tricolor. É comum que o resultado do clássico decida o clima dos almoços de domingo por semanas.
Os estádios viraram extensões dessa divisão. O Beira-Rio, casa do Internacional desde 1969, e a Arena do Grêmio, inaugurada em 2012, são os dois maiores palcos do Sul e vivem lotados nas datas do clássico. Antes deles, o Olímpico Monumental foi por décadas a fortaleza gremista e testemunha de capítulos épicos.
Os números oficiais do clássico
| Item | Valor |
|---|---|
| Confrontos oficiais | 453 |
| Vitórias do Internacional | 166 |
| Vitórias do Grêmio | 143 |
| Empates | 144 |
| Primeiro confronto | 18/07/1909 (Gre 10 x 0 Int) |
Títulos que alimentam a discussão
A rivalidade também se mede em taças. O Grêmio tem três Libertadores (1983, 1995 e 2017) e um Mundial, conquistado em 1983 sobre o Hamburgo. O Internacional responde com duas Libertadores (2006 e 2010) e o Mundial de 2006, ano em que derrubou o Barcelona de Ronaldinho na decisão e escreveu seu capítulo mais glorioso.
Cada taça de um lado aumenta a obrigação do outro. A sequência de títulos nacionais e continentais nas últimas duas décadas fez do Gre-Nal um clássico decidido também fora do Gauchão: os cruzamentos em Copa do Brasil e Libertadores passaram a valer como capítulos nacionais da rivalidade.

Por que é o maior do Brasil
- Mais de um século de confrontos, com equilíbrio estatístico raro.
- Um estado inteiro dividido ao meio, sem terceira força relevante.
- Eleito o maior clássico do país por Trivela (2008) e FourFourTwo (2016).
- Títulos internacionais dos dois lados alimentando a provocação.
- Goleada inaugural de 10 a 0 que nunca saiu do vocabulário das torcidas.
Renato contra Fernandão: os ídolos da era moderna
A era moderna do duelo tem rostos próprios. Do lado tricolor, Renato Portaluppi virou ídolo como jogador e como treinador, comandando as campanhas da Libertadores de 2017 e da Copa do Brasil de 2016. Do lado colorado, Fernandão eternizou-se como o capitão do Mundial de 2006 e símbolo da maior era do Inter.
A rivalidade de ídolos alimenta a contagem paralela que as torcidas adoram: cada título conquistado por um técnico ou capitão vira argumento na discussão sobre qual era foi mais dourada. E o calendário garante que a resposta nunca demore — há sempre outro clássico no horizonte.
As arenas acompanham a disputa: o Beira-Rio, reformado para a Copa de 2014, e a Arena do Grêmio, inaugurada em 2012, transformaram o clássico em espetáculo de padrão internacional, com lotações que seguem entre as maiores do futebol brasileiro.
A imprensa gaúcha trata a estatística do clássico como ciência exata: cada edição atualiza o placar histórico, e os almanaques do duelo são literatura obrigatória em Porto Alegre. A vantagem colorada no saldo é matéria de capa a cada reedição do confronto.
Para além dos números, há a geografia sentimental: famílias divididas entre o pai gremista e o filho colorado, fábricas que param no almoço de segunda e o taciturno respeito que os vizinhos guardam um pelo outro nos dias que antecedem o jogo.
E há a tradição dos palpites proibidos: em semana de clássico, os comentaristas locais evitam prognósticos, como se prever resultado fosse convidar o azar. O bom senso gaúcho aprendeu que, neste duelo, a bola pune a soberba com uma pontualidade impressionante.
Em Porto Alegre, a pergunta não é se você acompanha futebol: é de que lado você está. O Gre-Nal é menos um jogo do que um documento de identidade — e, pelos números e pela paixão, o maior clássico do Brasil.


